
A arte da dança traz consigo inúmeros significados, sobretudo quando é realizada num contexto de escravidão. Esse é um dos temas refletidos por Lilian Pestre de Almeida, que estuda a simbologia do barco negreiro na história da literatura mundial. Especialista em literatura francófona, a Doutora em Letras pela Sorbonne (Paris) traz um resumo da trajetória profissional do poeta franco-caribenho Aimé Fernand David Césaire (foto). A crítica e professora é também autora de uma edição da sua obra-prima, Cahier d'un retour au pays natal (Caderno de Retorno ao País Natal), da coleção Archivos. Segundo ela, Aimé Césaire é "um dos monumentos da poesia do século XX".
No percurso de análise, Lilian compara os poemas românticos de Pierre Jean de Béranger, Heinrich Heine e Castro Alves com o contemporâneo texto de Césaire. Enquanto lê alguns trechos do Cahier que, segundo a professora, é uma "inversão de os Lusíadas", interpreta como cada autor vê o significado da dança no barco ou navio negreiro, como é conhecido no Brasil.
No poema de Béranger, a dança é interpretada como uma maneira de divertir-se e esquecer as amarguras da vida. Em Heine, a atividade é estimulada de modo irônico sob o ponto de vista comercial, onde o autor traz a fala do colonizador que "reza a Deus para proteger as suas contabilidades", os escravos vistos como mercadoria.
Por último, a influência do poema satírico do alemão é presente na poesia declamada de Castro Alves. Em ambos, a figura do chicote é o instrumento de coerção que obrigava os escravos a dançar. Diferente dos poetas românticos do século anterior, Césaire abandona o estigma do "barco fantasma" e o transforma na figura de um monstro que devora. Esse é então destruído pela sua "carga", a tripulação escrava, vista como um bicho que o rói por dentro.
Nos versos do autor, a ruptura em busca da liberdade ocorre através da dança. Em comum, os quatro apresentam a experiência traumática do momento de separação do continente africano, vista como uma cena primitiva do tráfico para todos os negros da América. Tratados como animais, eram trazidos nus, apenas com a propriedade da memória.
Segundo o historiador Ubiratan Castro, o barco também era conhecido como o kibungo, a figura de um rinoceronte com um buraco nas costas que comia crianças ou, em outras palavras, a separação da família africana. Ele ainda afirma que, para a população traficada, que só no Brasil foram 5 milhões, a primeira manifestação de identidade cultural é a viagem. O escravo que atravessava o oceano confinado num porão mostrava sua solidariedade ao reconhecer o outro como um irmão – o malungo.
Césaire
Nascido em 26 de Junho de 1913, Aimé Cesaire teve o primeiro manifesto do seu ativismo durante ensino superior na França, quando criou o conceito de "negritude" e o introduziu em suas metáforas. É ainda nesse período que começa a redigir a obra (Cahier) em 1936, que nos anos seguintes o tornaria mundialmente conhecido. Mas é na estadia de seis meses no Haiti, em 1944, que o poeta descobre um mundo africano nas terras americanas. O país que tinha forte presença africana por ter abrigado tribos inteiras – a exemplo do culto Vodu, classificava o negro como uma identificação político-cultural, representou o encontro com suas raízes. "Quando cheguei no Haiti perdi a gagueira", afirmou o próprio Césaire para a pesquisadora Lílian Pestre, que conheceu pessoalmente o autor em 1980, revelando que esse foi o grande marco da sua vida. Segundo a crítica, os dez anos seguintes de 1946 são os mais importantes do seu trabalho, no qual ele descobre a inserção do homem no universo sagrado. No campo política, foi prefeito da Martinica durante 56 anos (1945-2001). Em abril de 2008, falece aos 94 anos e é sepultado com honras do Estado francês.
*Matéria publicada originalmente no Correio Nagô.
No poema de Béranger, a dança é interpretada como uma maneira de divertir-se e esquecer as amarguras da vida. Em Heine, a atividade é estimulada de modo irônico sob o ponto de vista comercial, onde o autor traz a fala do colonizador que "reza a Deus para proteger as suas contabilidades", os escravos vistos como mercadoria.
Por último, a influência do poema satírico do alemão é presente na poesia declamada de Castro Alves. Em ambos, a figura do chicote é o instrumento de coerção que obrigava os escravos a dançar. Diferente dos poetas românticos do século anterior, Césaire abandona o estigma do "barco fantasma" e o transforma na figura de um monstro que devora. Esse é então destruído pela sua "carga", a tripulação escrava, vista como um bicho que o rói por dentro.
Nos versos do autor, a ruptura em busca da liberdade ocorre através da dança. Em comum, os quatro apresentam a experiência traumática do momento de separação do continente africano, vista como uma cena primitiva do tráfico para todos os negros da América. Tratados como animais, eram trazidos nus, apenas com a propriedade da memória.
Segundo o historiador Ubiratan Castro, o barco também era conhecido como o kibungo, a figura de um rinoceronte com um buraco nas costas que comia crianças ou, em outras palavras, a separação da família africana. Ele ainda afirma que, para a população traficada, que só no Brasil foram 5 milhões, a primeira manifestação de identidade cultural é a viagem. O escravo que atravessava o oceano confinado num porão mostrava sua solidariedade ao reconhecer o outro como um irmão – o malungo.
Césaire
Nascido em 26 de Junho de 1913, Aimé Cesaire teve o primeiro manifesto do seu ativismo durante ensino superior na França, quando criou o conceito de "negritude" e o introduziu em suas metáforas. É ainda nesse período que começa a redigir a obra (Cahier) em 1936, que nos anos seguintes o tornaria mundialmente conhecido. Mas é na estadia de seis meses no Haiti, em 1944, que o poeta descobre um mundo africano nas terras americanas. O país que tinha forte presença africana por ter abrigado tribos inteiras – a exemplo do culto Vodu, classificava o negro como uma identificação político-cultural, representou o encontro com suas raízes. "Quando cheguei no Haiti perdi a gagueira", afirmou o próprio Césaire para a pesquisadora Lílian Pestre, que conheceu pessoalmente o autor em 1980, revelando que esse foi o grande marco da sua vida. Segundo a crítica, os dez anos seguintes de 1946 são os mais importantes do seu trabalho, no qual ele descobre a inserção do homem no universo sagrado. No campo política, foi prefeito da Martinica durante 56 anos (1945-2001). Em abril de 2008, falece aos 94 anos e é sepultado com honras do Estado francês.
*Matéria publicada originalmente no Correio Nagô.

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